A mídia tradicional e a mídia independente nos tempos da web 2.0
Antes da ascensão da web 2.0, a mídia independente – rádios comunitárias (rádios-pirata), jornais de baixa circulação e fanzines – apesar de nunca deixarem de ser vistos com uma dose de cautela pela grande mídia (rádios e TV’s, revistas e jornais), governos e corporações, nunca foi vista de fato como grande ameaça aos seus interesses. Mas, com o advento dessa web colaborativa (ou 2.0), onde o custo para a publicação de conteúdo com alcance global é praticamente zero, a mídia independente pôde crescer de forma exponencial, através de veículos como listas de discussão, boletins por correio eletrônico, redes sociais, podcasts, blogs e fotologs, trazendo à público de forma muito mais impactante informações que contradizem o que é veiculado pela mídia tradicional, ao ponto de fazer tremer a grande mídia (vide a briga Estadão X Blogueiros).
Mas será que toda forma de mídia independente na internet é realmente independente? Será que os modelos de mídia independente na web não podem ser manipulados por interesses de terceiros?
Informação independente e confiável
Desde sempre pudemos verificar na grande mídia (principalmente em épocas de eleição) tentativas de induzir e influenciar (quando não alienar) ideologicamente a população, tanto por interesses políticos como financeiros (recomendo que assistam os filmes Muito além do Cidadão Kane e Quanto Vale ou é por Quilo?). Basta pesquisar quantos políticos hoje são diretamente concessionários de rádios e TV’s para reforçar essa idéia. Desde sempre, a mídia tradicional procura fornecer uma enxurrada de informações, em grande volume e velocidade, para que a população possa apenar assimilar e aceitar as informações, e nunca analisá-las. Mas claro que nem toda a mídia tradicional tem esse caracter (não podemos nunca generalizar), porem salvo raras exceções. Iniciativas independentes de manifestar opiniões podiam ser facilmente desacreditadas pela grande mídia, por não terem de fato grande veiculação nem um espaço impactante o suficiente para replicas.

Porém essa história, na atual fase colaborativa da web, é bem diferente. Hoje temos uma enxurrada de informação publicada de forma independente (um jornalismo cidadão, como alguns preferem chamar), e que não são apenas empurradas garganta abaixo, mas discutidas (vide as listas de discussão, comunidades no Orkut ou comentários nos blogs). Já temos hoje diversos portais de notícias feitos por pessoas comuns e que participam diretamente dos fatos, como o WikiNews e o CMI, o que gera uma informação independente, confiável, precisa, abrangente e relevante. Porém não é difícil encontrar conhecidos portais na web que, aproveitando a onda, criaram sua própria área de “leitor-repórter”, o que não deixa de ser um aproveitamento comercial do material gerado por leitores.
Hoje, a grande mídia tradicional, que sempre subjugou a capacidade da população de fazer algum julgamento racional e inteligente das informações veiculadas, hoje pode ser rebatida por um grande número de indivíduos publicando informações com grande alcance e velocidade. E por mais que boa parte da população das periferias ainda não tenha acesso a web, acabam sendo atingidas indiretamente por esse conteúdo, por novos indivíduos formadores de opinião, que podem obter essas informações, e interagir e discutir com essas pessoas.
Cuidado com informações ditas “independentes”
Apesar da grande mídia, governos e corporações ainda usarem de táticas que procuram promover o medo, incerteza e dúvida com relação a mídia independente (assim como acontece nas campanhas das empresas de software proprietário contra o software livre), o receptor final das informações veiculadas já não é mais passivo como em outras épocas, e tem cada vez mais senso crítico e acesso a informações de qualidade.
Porém, há que se ter cuidado com certas informações lidas nas esferas independentes da web, como blogs e redes sociais, pois por serem meios onde a informação pode circular de forma anônima, fica fácil (e é feito) para empresas e políticos interagirem nos meios independentes. Nada garante, por exemplo, que indicações no Digg, comunidades no Orkut ou vídeos publicados no Youtube sejam feitos por pessoas de forma independente ou por governos e corporações se passando por indivíduos independentes, trabalhando para induzir a opinião pública de forma viral. Algumas agências e empresas já anunciam ter pessoas especializadas em interagir dentro de redes sociais para campanhas publicitárias. O problema é que não sabemos quantos políticos, entidades e corporações em geral tem pessoas agindo dentro de redes sociais para disseminar campanhas ideológicas. Basta analisarmos a quantidade de comunidades e perfis no Orkut criados na última eleição para promover ou denegrir candidatos e partidos, para se ter uma idéia do que quero dizer.
Uma nova perspectiva
Podemos concluir que, com a democratização e crescimento cada vez maior da web colaborativa, a mídia independente tende cada vez mais a crescer, a população tende cada vez mais a ter voz ativa, senso crítico e opinião própria. Porém, ainda temos que ser bem cautelosos e ter um senso crítico cada vez mais apurado contra as investidas daqueles que detém o poder, contra essa nova forma de liberdade de expressão.
Como diria o ex-Dead Kennedy Jello Biafra, não odeie a mídia: seja a mídia!
“Ser uma alternativa à mídia oficial e contribuir para que as pessoas possam ter senso crítico. A mídia tradicional tem o poder de aliciar corações e destruir mentes. O radical não se sente dono do tempo, nem dono dos homens, nem libertador dos oprimidos. Com eles se compromete, dentro do tempo, para com eles lutar.” (PAULO FREIRE)
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