De repente, Robert Crumb aqui na vila!

"Blues", de Robert Crumb
Como bom desinformado que sou, fiquei sabendo apenas no dia do acontecido que Gilbert Shelton e Robert Crumb estariam nesse dia 10 de agosto na Livraria da Vila, na Fradique Coutinho para um encontro pós-Flip.
Para aqueles mais desinformados do que eu, Gilbert Shelton é um dos expoentes dos quadrinhos underground, criador de personagens como os Freak Brothers e o gato Fat Freddy. Já Robert Crumb é o símbolo da contracultura dos anos 1960, criador de personagens como Mr. Natural e Fritz, the Cat.
Sai do trabalho e caminhei direto para a livraria, e posso dizer que ali parecia uma lata de sardinhas descoladas. Eu, que já não tenho mais idade (mental) para muvucas, pensei em ir embora. Porém antes do bate-papo começar, anunciaram que tudo seria transmitido em um telão no café aos fundos da livraria, onde poderíamos acompanhar a entrevista confortavelmente tomando um expresso. Foi o que eu fiz, me acomodei no café e pedi uma cerveja!
Enquanto todos esperavam o atrasado Robert Crumb, eu e a @FernandaStambul trocávamos twits, tentando nos encontrarmos naquela imensidão de aproximadamente 18m² do café, e com o Paulo Caruso demonstrando mau humor enquanto resmungava parado ali ao meu lado. Após mais alguns twits, eu e a moça já estávamos juntos quando a transmissão da entrevista começou, mediada por Caco Galhardo. Shelton e Crumb se mostraram muito bem-humorados desde o início, enquanto ao meu lado o Paulo Caruso ainda reclamava com o funcionário do café que o barulho do espremedor de laranjas não o deixava ouvir a transmissão. Pensei então com os meus botões “quem foi o infeliz que pediu um suco de laranja, só para o Caruso ficar aqui reclamando?”.

Capa de Cheap Thrills (1968), segundo álbum da Big Brother and the Holding Company, banda de Janis Joplin. Feita por Crumb.
Crumb estava espantado com a quantidade de pessoas que ‘o amavam’, e brincava dizendo que cedo ou tarde alguém da plateia levantaria para lhe dar um tiro. Eu já estava pedindo minha segunda cerveja quando ele continuou a conversa, dizendo que usou drogas para abrir a mente, coisa que ele não recomendava apesar de ter funcionado. Nesse momento, a @FernandaStambul já sacudia nas mãos o LP Cheap Thrills, da Big Brother and the Holding Company, banda de Janis Joplin. A moça torcia para conseguir um autógrafo do Crumb naquela capa feita por ele, ainda que o próprio autor da obra tivesse declarado não entender porque a Janis o convidou para fazer aquela capa, já que ele não gostava da música dela.
Já que entrei no assunto… Crumb é um grande fã de música, e vinis de 78 rotações. “Isso aqui parece natal”, dizia ele ao receber diversas bolachonas de presente da plateia. Reclamou de um disco do Crosby que ganhou, dizendo que era chato, e ainda disse ao microfone que queria um do Pixinguinha!
Enquanto eu matava minha segunda long neck, já estava pensando em convidar o Crumb para tomar mais algumas, quando então ele disse na entrevista que não gostava de cerveja… Mas tudo bem, eu preferia mesmo encontrar a @jumancin ao final do evento pra tomar umas e outras, e ela nem iria atrair tanta muvuca como ele!
Entre tantas outras coisas que disse, Crumb ainda fez elogios ao Brasil afirmando ter encontrado aqui pessoas doces e gentis, ao contrário da propaganda negativa de violência que fazem lá fora, e disse que sua visita ao nosso país tropical o fez repensar seus conceitos. Também não deixou de elogiar nossas mulheres, dizendo que elas são belas e grandes (?), e que aqui é um paraíso para o voyeur. Depois demonstrou o quanto ficou impressionado com São Paulo, perguntando como nós conseguíamos viver aqui sem ficarmos loucos. Mal sabia ele que nós somos realmente loucos!

Shelton e Crumb distribuindo autógrafos. Foto tirada pela @FernandaStambul
Após mais de uma hora de conversa, o evento se encerrava. Começava então a luta das sardinhas descoladas por um autógrafo. A organização havia distribuído quarenta senhas para autógrafos em “livros comprados na Livraria da Vila”. Como de costume, o número de sardinhas descoladas que buscavam a assinatura ultrapassou o limite, assim como a origem dos itens a serem autografados não pode ser controlada.
Não muito tempo depois de autografar o Cheap Thrills da @FernandaStambul, Crumb ficou irritado com a quantidade de autógrafos que estava dando, então se virou e escalou o corrimão da escada, disse que haviam acabado os autógrafos por hoje e se trancou no banheiro. Já Shelton permaneceu ali mais um tempo distribuindo autógrafos, enquanto terminava de tomar sua cerveja.
Depois de tudo acabado, e depois de me perder da @jumancin, ouvi do lado de fora da Livraria alguém dizer que o time do Santos estava ganhando da seleção dos Estados Unidos por 2×0, mesmo estando desfalcado de sete titulares! Sai correndo para o Empanadas Bar para terminar de assistir o jogo e encerrar ali a minha noite :)
Nota do autor: Para fins de esclarecimentos, venho dizer que [1] não falei aqui quase nada sobre Gilbert Shelton pois não prestei muita atenção nele, e que [2] apesar de meus comentários maldosos sobre o suposto mau-humor de Paulo Caruso, sou grande fã dele… Ou não! E também nem sei mesmo se era o Paulo ou o Chico Caruso :)
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