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O fetiche do iPhone

Houve uma época em que eu ainda acreditava no Design como uma ferramenta de construção do conhecimento. Não que eu ainda não acredite nisso, mas hoje o Design acaba se revelando muito mais como uma ferramenta para estimular o consumismo nas pessoas, através da criação de um poder simbólico agregado aos produtos.

Acredito que atualmente o maior representante dessa classe de produtos seja o iPhone. O que gira em torno desse SmartPhone que o torna tão especial e tão necessário, ao ponto de existirem cerca de 300 mil unidades em uso no Brasil mesmo antes de seu lançamento oficial em nosso país? O que faz as pessoas desejarem não só esse objeto em si, mas também outros objetos que representem a sua aura?

Seriam as suas revolucionárias funcionalidades, mesmo que em questões práticas encontremos funções idênticas ou similares em outros aparelhos? Ou seria sua revolucionária tela ‘Touch’? Bem, isso já existia antes do iPhone em Palm’s e outros aparelhos… Claro, mas não com a mesma Interface, e com esse Design que parece ter saído de um conto de fadas!

Usabilidade? Convergência de funções? Isso tudo é suficiente para a construção de um mito?

A influência da Mídia

É um aparelho mágico! Pelo menos assim o fantasia a ‘Revista Veja’ em sua reportagem sobre o iPhone, em 17 de janeiro de 2007:

“Quem ganha é o consumidor, que tem acesso a aparelhos que tornam a vida mais agradável, colorida, desfrutável, segura, produtiva e rica.”

“Passa-se o dedo levemente sobre a superfície da tela e as imagens deslizam na mesma direção como que impulsionadas por uma força invisível.”

Bem, encontramos o “X” da questão: o discurso midiático!

A exposição que a mídia o fornece, faz com que a Apple praticamente não precise fazer propaganda de seu produto. Vemos referência ao produto na TV, em filmes, séries, desenhos animados, e até mesmo em campanhas de outras empresas, como foi o caso do comercial da Reebok exibido na final da Liga dos Campeões da Europa entre Barcelona e Manchester United, onde jogadores desses clubes aparecem como grandes usuários do iPhone.

O mundo mágico que se cria em torno desse SmartPhone faz com ele torne-se um objeto de desejo, um símbolo de poder ao portador, capaz de lhe dar status e autoconfiança perante a sociedade em que vive. O iPhone é capaz de trazer liberdade as pessoas… Apesar de essa não ser a opinião do estudioso Jonathan Zittrain, que considera que esse aparelho, símbolo de inovação, colabora diretamente em inibir da inovação coletiva, referindo-se a sua arquitetura fechada, diferentemente de como são os PC’s e a própria Internet:

“Fechados, estes aparelhos proíbem ajustes por parte dos usuários finais. Essa capacidade de interação com os usuários finais foi fundamental para transformar os PCs e a internet em uma grande alavanca de mudança econômica, política e artística.”

Ridendo Castigat Mores

Parafraseando Molière com sua afirmação de que “Rindo castigam-se os costumes”, trago abaixo uma das melhores críticas feita a esse mundo mágico que circunda os produtos da Apple, um episodio da temporada 20 dos Simpsons onde Lisa e sua família avistam uma nova loja no shopping de Springfield, a Mapple Store!

O que foi? Estão se perguntando o porque estou criticando tanto assim a Apple?

Ora, não é uma crítica a Apple em si… Só pra constar, eu trabalho todos os dias em um iMac. Eu só quis jogar um pouco de luz na sociedade moderna :)

Querem-me perguntar algo?

Tudo que é binário se desmancha no ar!

Todos fazemos listas de resoluções para o novo ano que se inicia. Na minha cabeça essas resoluções costumam ser uma constante para o século. Ironicamente, me dei conta de uma resolução importante justamente durante o Reveillon.

Faltando aproximadamente uma hora para a tal virada de ano, entre uma cerveja e um churrasquinho, um amigo meu de longa data faz tipo de colocação que eu já não ouvia a um bom tempo: “A revolução tem que começar pelo campo!”. Com o espírito já meio elevado, não pude deixar de me espantar (e ao mesmo tempo sorrir) com o comentário.

Mais um gole de cerveja e eu ouvia que “…outras revoluções aconteceram dessa forma!”. Já acalorando a conversa, entre goles de cerveja e discussões que iam desde os Grileiros no Pará até a Revolução Cubana, fiz algumas de minhas considerações:

“Como dizem, uma Revolução para acontecer necessita do apoio popular. Devemos nos preocupar hoje muito mais com quem condiciona e forma a opinião popular… Qualquer revolução deve voltar seus olhos pra Mídia, hoje temos meios de fazer parte dela! Hoje temos a oportunidade de sermos muito mais que consumidores de informação, podemos produzi-la, discuti-la, rebate-la… Não somos mais tão passivos assim com relação aos conteúdos que recebemos! Hoje é mil vezes mais fácil criar um Blog para levar essa expressão a um número muito maior de pessoas do que tentávamos fazer em outras épocas com os fanzines xerocados… Hoje o alcance e a interação dos protestos é muito maior através do Twitter do que com panfletagens.

Diferente do que teve início na Revolução Industrial, Não existe mais essa divisão clara entre ‘detentores dos meios de produção’ e ‘os que vendem mão de obra’… Muita gente hoje detém seu próprio meio de produção e, ao invés de mão de obra, vendem conhecimento. Nesses nossos dias, muitos produtos são intangíveis, binários! O poder está hoje nas mãos daqueles que detêm o fluxo e produção de informação, daqueles que detém patentes de software, e mantém o Terceiro Mundo nessa dependência tecnológica. Devemos ser produtores de informação e conhecimento, e não simplesmente consumidores, e toda essa informação deve ser livre e aberta a todos que quiserem usa-lo, estuda-lo, adapta-lo ou distribui-lo!

Uma revolução não deve ter um foco fixo de onde se iniciar, devem existir vários focos espalhados em diversas áreas, combatendo as diversas formas de dominação. As Revoluções do passado aconteceram como aconteceram pois se vivia uma outra conjuntura, um outro contexto… Hoje devemos mirar também nosso olhar para coisas muito maiores!”

Depois de inúmeras interrupções, eu terminei meu discurso. Meu amigo disse então:

“Revolução de Tecnologia? Pela Internet? Com Computadores? Só se for algum outro tipo de Revolução Burguesa… Vocês ficam escondidos atrás das telas, crentes de que estão alcançando o mundo todo, se esquecendo das coisas que acontecem na vida real… Esquecem que ainda existem pessoas dentro de fábricas, esquecem que essas pessoas ainda vendem sua mão de obra para pessoas que ainda detêm meios de produção… Esquecem que suas Tuitagens não chegam até aqueles que passam seus domingos no sofá assistindo a Globo, não chegam até aqueles que vivem de catar o lixo de vocês nas ruas, nem até aqueles que ainda hoje não tem esgoto encanado, nem aqueles que vivem nas barracas dos terrenos ocupados, ou daqueles que cortam cana… Não chegam até aqueles que se ralam de verdade na aspereza da vida. A Internet e essas tecnologias não passam de uma zona de conforto… e comodismo!”

Quando então faltavam já poucos minutos para a virada de ano, e fogos já pipocavam pelo céu, a discussão começava a esquentar mais do que devia, e um terceiro amigo estão veio intervir para que parássemos de conversa fiada, e para que voltássemos a bebemorar (seja lá o que tivéssemos para bebemorar nessa virada). Fato é que nenhum dos dois sabia mais se estava falando coisa com coisa!

Ainda sou convicto de alguns pontos que levantei, porém não da mesma forma. Não discordo (agora) de tudo que disse meu amigo. A Internet e a Tecnologia ainda não estão presentes na vida de muitos, da forma que está na nossa. A Internet não deixa de ser uma boa zona de conforto para muitos, inclusive para mim!

Resolução para 2010? Não deixar de fazer as coisas que venho fazendo, mas talvez passar menos tempo na frente de uma tela, sentir um pouco mais de sol na pele, e ver um pouco mais a vida acontecendo de verdade!

A Mídia Tradicional e a Mídia Independente nos tempos da Web 2.0

Antes da ascensão da Web Colaborativa, a Mídia Independente – rádios comunitárias (rádios-pirata), jornais de baixa circulação e fanzines – apesar de nunca deixarem de ser vistos com uma dose de cautela pela Grande Mídia (Rádios e TV’s, Revistas e Jornais), Governos e Corporações, nunca foi vista de fato como grande ameaça aos seus interesses. Mas, com o advento da Web Colaborativa (ou como alguns preferem chamar, Web 2.0), onde o custo para a publicação de conteúdo com alcance Global é praticamente zero, a Mídia Independente pode crescer de forma exponencial, através de veículos como listas de discussão, boletins por correio eletrônico, Redes Sociais, Podcasting de áudio e vídeo, Blogs e Fotologs, trazendo à público de forma muito mais impactante informações que contradizem o que é veiculado pela Mídia Tradicional, ao ponto de fazer tremer a Grande Mídia (vide a briga Estadão X Blogueiros).

Mas será que toda forma de Mídia Independente na Internet é realmente Independente? Será que os modelos de Mídia Independente na Web não podem ser manipulados por interesses de terceiros?

Desde sempre pudemos verificar na Grande Mídia (principalmente em épocas de eleição) tentativas de induzir e influenciar (quando não alienar) ideologicamente a população, tanto por interesses políticos como financeiros (recomendo que assistam os filmes “Muito além do Cidadão Kane” e “Quanto Vale ou é por Quilo?“). Basta pesquisar quantos políticos hoje são diretamente concessionários de rádios e TV’s para reforçar essa idéia. Desde sempre, a Mídia Tradicional procura fornecer uma enxurrada de informações, em grande volume e velocidade, para que a população possa apenar assimilar e aceitar as informações, e nunca analisá-las. Mas claro que nem toda a Mídia Tradicional tem esse caracter (não podemos nunca generalizar), porem salvo raras excessões. Iniciativas Independentes de manifestar opiniões podiam ser facilmente desacreditadas pela Grande Mídia, por não terem de fato grande veiculação nem um espaço impactante o suficiente para replicas.

Porém essa história, na atual fase Colaborativa da Web, é bem diferente. Hoje temos uma enxurrada de informação publicada de forma independente (um Jornalismo Cidadão, como alguns preferem chamar), e que não são apenas empurradas garganta abaixo, mas discutidas (vide as Listas de discussão, comunidades no Orkut ou comentários nos Blogs). Já temos hoje diversos portais de notícias feitos por pessoas comuns e que participam diretamente dos fatos, como o WikiNews e o CMI, o que gera uma informação independente, confiável, precisa, abrangente e relevante. Porém não é difícil encontrar conhecidos Portais na Web que, aproveitando a onda, criaram sua própria área de “Leitor-Repórter”, o que não deixa de ser um aproveitamento comercial do material gerado por leitores.

Hoje, a Grande Mídia Tradicional, que sempre subjugou a capacidade da população de fazer algum julgamento racional e inteligente das informações veiculadas, hoje pode ser rebatida por um grande número de indivíduos publicando informações com grande alcance e velocidade. E por mais que boa parte da população das periferias ainda não tenha acesso a Web, acabam sendo atingidas indiretamente por esse conteúdo, por novos indivíduos formadores de opinião, que podem obter essas informações, e interagir e discutir com essas pessoas.

Apesar da Grande Mídia, Governos e Corporações ainda usarem de táticas que procuram promover o medo, incerteza e dúvida com relação a Mídia Independente (assim como acontece nas campanhas das empresas de Software Proprietário contra o Software Livre), o receptor final das informações veiculadas já não é mais passivo como em outras épocas, e tem cada vez mais senso crítico e acesso a informações de qualidade.

Porém, há que se ter cuidado com certas informações lidas nas esferas independentes da Web, como Blogs e Redes Sociais, pois por serem meios onde a informação pode circular de forma anônima, fica fácil (e é feito) para Empresas e Políticos interagirem nos meios Independentes. Nada garante, por exemplo, que indicações no Digg, comunidades no Orkut ou vídeos publicados no Youtube sejam feitos por pessoas de forma Independente ou por Governos e Corporações se passando por indivíduos independentes, trabalhando para induzir a opinião pública de forma Viral. Algumas agências e empresas já anunciam ter pessoas especializadas em interagir dentro de Redes Sociais para campanhas publicitárias. O problema é que não sabemos quantos Políticos, Entidades e Corporações em geral tem pessoas agindo dentro de Redes Sociais para disseminar campanhas ideológicas. Basta analisarmos a quantidade de Comunidades e Perfis no Orkut criados na última eleição para promover ou denegrir candidatos e partidos, para se ter uma idéia do que quero dizer.

Podemos concluir que, com a democratização e crescimento cada vez maior da Web Colaborativa, a Mídia Independente tende cada vez mais a crescer, a população tende cada vez mais a ter voz ativa, senso crítico e opinião própria. Porém, ainda temos que ser bem cautelosos e ter um senso crítico cada vez mais apurado contra as investidas daqueles que detém o Poder, contra essa nova forma de Liberdade de expressão.

Como diria o ex-Dead Kennedy Jello Biafra, “não odeie a mídia: seja a mídia!”

“Ser uma alternativa à mídia oficial e contribuir para que as pessoas possam ter senso crítico. A mídia tradicional tem o poder de aliciar corações e destruir mentes. O radical não se sente dono do tempo, nem dono dos homens, nem libertador dos oprimidos. Com eles se compromete, dentro do tempo, para com eles lutar.” (PAULO FREIRE)

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